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Gláucia de Castro Pimentel

Socióloga - Doutora em Artes e Movimentos Culturais nas Cidades

Pesquisadora, Professora e Palestrante

A ESTÉTICA COMO CONTROLE DE PODER: A ETIQUETA

Etiqueta se confunde com boa educação e boas maneiras, mas também com frescura, chatice e perda de tempo. Mas é preciso lembrar que a etiqueta não é mera perfumaria, já que foi parte de uma estratégia para manter coeso e estável, um país que atravessava um momento extremamente explosivo. O rei Luis XIV (16431715) decidiu reunir vassalos sob seu teto – o megapalácio de Versailles, para evitar que a nobreza organizasse exércitos contra a monarquia que se queria absoluta. Agrupar parentes tão poderosos, chefes de exércitos ambiciosos, mesmo sob vigilância, demandava uma estratégia para garantir a ordem. A burguesia financiadora do exército do Rei Sol exigia privilégios junto à corte real, e a nobreza usou a etiqueta mais refinada e rebuscada que o Ocidente já conhece para se distanciar dos toscos plebeus. 

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ARTE DE RUA: MITOS E CONFLITOS

Há muitos anos que convivemos com escrituras pelas cidades. São Paulo é uma dessas cidades que, a cada dia, fornece mais e novas imagens, cores, escrituras ilegíveis e grande diversidade de grafismos que causam surpresa todos os dias. Estas manifestações, no entanto, não apareceram no mundo com o Movimento Hip Hop, mas estão presentes desde as origens das formações sociais, como confirmam as inscrições rupestres na França (Lascaux), na Espanha (Altamira), e no magnífico sítio da Serra da Capivara no Piauí, descoberto recentemente. Muitos outros sítios arqueológicos provam essa vocação humana.

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CEMITÉRIOS: ORIGEM DA CIVILIZAÇÃO HUMANA

Mortos. Todos mortos. Sabemos que estaremos todos mortos, um dia. Mas odiamos pensar sobre isso. Fingimos não existir a morte para não ter de lidar com ela. Planos, jogos, desafios, busca por riqueza pessoal, tudo nega a morte, tenta ignorá-la. E isto é novo. Historicamente, isto é muito recente; com menos de setenta anos. Um cílio no relógio do tempo. Até a II Grande Guerra a morte era uma presença nas decisões humanas – desde as públicas às particulares, passando pelas Artes, as Ciências, e claro, totalmente fundamentada nas Religiões e Filosofias.

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SURREALISMO: A SUBVERSÃO DO SELF

 

  1. Magritte – La reprodution interdit – 1937

Toda dor leva ao abismo. Viver é um caminho assustador, tropeçando em realizações, pesadelos, humilhações, gargalhadas, abusos ….. o desconhecido. Dar nome à dor é se furtar ao abismo da existência. Dar forma ao monstro é apaziguá-lo, é negociar com ele um topos, uma classificação, uma domesticação. Por isso o Surrealismo é uma via certa de circular do pânico ao sonho, e do horror ao combate.  E que não se confunda o não-compreendido com o não-existente, ou não saberíamos dos belos e loucos fractais. Daí o Surrealismo ser um jogo de abismos que reflete a vida, dela extraindo seu patético, seu exótico, seu absurdo, seu impacto maior.

2. Dali passeando um tamanduá (brasileiro?) em Paris - 1960

2. Dali passeando um tamanduá (brasileiro?) em Paris – 1960

O Surrealismo guarda forte identificação com ideais libertários, abraçando infinitas contradições. Viver sem a calma da explicação é aceitar viver em suspenso. Sem certezas que não passam de hipóteses teóricas agarradas por cansaço ou covardia. Nossa histeria por alegrias e certezas falseia os selfies aborrecidos de tantos faces, tantos instagrans, tantas outras vias de auto-enganação. Construir ilusões sobre ilusões… sobre ilusões…. pode nos levar às nuvens da melancolia, num inventário de agonia.

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A CONSTRUÇÃO DO OLHAR NACIONAL

 

1. Rua-25 de Março

Somos demasiadamente estranhos. Muito gentis, sorridentes e solícitos, ao mesmo tempo que violentamente letais, grosseiros e vulgares. Recentemente nas Olimpíadas, as opiniões dos estrangeiros sobre o povo brasileiro, oscilou de uma visão folclorizada de índios latinos ou milionários excêntricos, para a percepção de um povo entre o caloroso e o rude. Teremos uma verdadeira face, ou somos o misto de nossas frustrações e aspirações? O “Homem Cordial” (de cordis – coração em latim) definido por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, teorizava a partir da constatação de sermos uma nação dada às explosões emocionais – impetuosos, solidários e sanguíneos – ou seja, imprevisíveis.

Não é de hoje. Em passeio pela COLEÇÃO BRASILIANA ITAÚ reunida por Olavo Setubal, mentor e realizador do Centro Cultural Itaú, vemos nosso olhar sendo construído ao longo dos últimos quatrocentos e poucos anos por estrangeiros, e mais recentemente, por nós mesmos, contra e à favor, mas sempre em relação. Fizemos de nós, o que vimos nos espelhos dos olhos que achávamos reconhecer como padrão civilizatório. Desconhecidos senhores de arbitrários conhecimentos, desenhistas, pintores, gravuristas, maravilharam-se com o impacto dos “absurdos do Novo Mundo”. E somos parte desse mundo inventado por seus preconceitos e delírios. Fomos construídos pelos olhos dos Outros. Ainda hoje, sermos considerados “criativos”, “safos”, “alegres”, “simpáticos”, “belos”, “sensuais” etc,  não passa do desejo profundo de auto-aprovação. Uma história que tentamos nos recontar à exaustão.

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2-Dzi-Croquetes anos 70-s/autoria-Net

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BLANCHE na versão de ANTUNES FILHO

Recém chegada – Foto Evelson de Freitas

Tennessee Williams, dramaturgo estadunidense escreveu uma peça em 1947 ambientada na sufocante New Orleans, cidade sulista onde culturas tão díspares convivem sob pressão em bases afrancesadas. Com traços da religiosidade vudu haitiana com seu imperativo de mistério e perigo, mistura-se a uma sociedade operária em formação, numa região pobre e pouco industrializada do EUA durante a II Guerra Mundial, onde dificuldades de sobrevivência tornam instáveis os humores na incerteza pela sobrevivência.

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PERFORMANCE: A LINGUAGEM INVISÍVEL

 

IVALDO GRANATO

IVALDO GRANATO

Quando pensamos em História da Arte, ainda ouço professores que se atém na sequencia de Escolas ou de Criadores, esvaziando as bases históricas de determinado movimento, criação ou regra criada, quebrada ou proposta.

Além da pobreza desse personalismo seletivo, onde anônimos fundamentais são ignorados, e onde grandes criadores não-partícipes do quadro de poder eleito pela historiografia oficial, passam a fazer suas eleições excluindo intencionalmente, todos os que não eram egressos do clubinho “Branco, Masculino, Hétero e Europeu”, adotado como tal ou europeizado. Assim, mulheres, índios, outras etnias, outras orientações sexuais explicitadas, foram sendo esmaecidas, apagadas, ou sendo relidas como meros coadjuvantes nos grandes marcos do panorama da história da humanidade – Ocidental ou não. Podemos citar algumas mulheres resgatadas do ostracismo como Camille Claudel (artista sensível e frágil, tida como mera amante e serviçal nos trabalhos do escultor Auguste Rodin, que enlouqueceu desacreditada e alijada) e Frida Kahlo, que tendo vivido à sombra do famoso Diego Rivera, morta em 1954, foi resgatada pela crítica e mercado há não mais quinze anos.

Não bastasse o cânone mesquinho e falacioso, ainda ignoram as pesquisas fascinantes que outras linguagens de Artes seguem ousando como a PERFORMANCE e o VÍDEO.

Por total falta de interesse ou de imersão no campo das artes, percebo que professores de História das Artes ignoram ou confundem essas linguagens, supondo-as anexas ou desdobradas de outras linguagens e técnicas de domínio comum. Na verdade essas linguagens deixaram de pertencer a um campo de ação único e clássico, confundindo leituras desavisadas.

ESTER FERRER

ESTER FERRER no Festival de Música de Alicante em 2012

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PROVOCAÇÕES – Desejo e Pecado em exposição na galeria!

1. Lustre - Rau de Nieves - mexicano

1. Lustre – Rau de Nieves – mexicano

Envoltos pelo desejo somos impulsionados pela visão das provocações. Freud percebeu que somos seres divididos pelas pulsões: do Amor e de Morte. Eros e Thanatos. Animais, nos civilizamos, mas o esforço é inglório. Bem que tentamos, mas tudo nos provoca, tudo conecta, tudo lembra …. e disfarçamos. A visão hipnotiza, liga, associa e os excessos nos levam aos desejos excessivos, luxuriantes, brilhantes, borbulhantes. A contenção é fundamental, o verniz civilizatório é fundamental.  mas o preço é sempre alto.

Um dos maiores freudianos, Herbert Marcuse em Eros e Civilização, comenta a importância dos interditos. Se tudo fosse permitido – transar quando se quer, da maneira que se quiser, matar também estaria com amarras soltas. Seríamos uma espécie em extinção logo no nascedouro, há trinta e cinco mil anos atrás, quando começamos a descer das árvores. Para um convívio o pacto seria fundamental: sexo com regras, morte com regras. Mas ambos continuam sendo ansiados. A Civilização impediu nossa extinção, mas é só verniz!  Ânsia pelo prazer e ânsia por destruir desafetos, seguem na pauta dos dias. De cada um de nossos dias. 

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PAPEL DA CURADORIA NO MERCADO ATUAL

Basquiat - Músicos - 1981

Basquiat – Músicos – 1981

Para Fernando Pessoa a Arte é expressão pessoal independentemente do que seja. Mas essa é uma imagem bem moderna, onde a busca da autoria e da originalidade são imperativas. Mas a ideia de que a arte seja uma leitura perturbadora do senso comum faz mais sentido no tempo atual. Algo que estava adormecido no cotidiano amesquinhado por um conforto manipulado salta aos olhos em deslocamentos criativos. Arte se torna uma indagação muda – um incômodo. Por isso é uma ação de cultura, não mais uma exclusividade da estética. Ela não lida mais, necessariamente, com o belo, com o gosto, com o prazer, mas com a filosofia e a política – no sentido em que nos relacionamos com a Pólis e suas intervenções são provocações ao Outro – ao público, portanto, um diálogo político, exposto à Pólis. A arte propõe debates.

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