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A CONSTRUÇÃO DO OLHAR NACIONAL

Somos demasiadamente estranhos. Muito gentis, sorridentes e solícitos, ao mesmo tempo que violentamente letais, grosseiros e vulgares. Recentemente nas Olimpíadas, as opiniões dos estrangeiros sobre o povo brasileiro, oscilou de uma visão folclorizada de índios latinos ou milionários excêntricos, para a percepção de um povo entre o caloroso e o rude. Teremos uma verdadeira face, ou somos o misto de nossas frustrações e aspirações? O “Homem Cordial” (de cordis – coração em latim) definido por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, teorizava a partir da constatação de sermos uma nação dada às explosões emocionais – impetuosos, solidários e sanguíneos – ou seja, imprevisíveis.

Não é de hoje. Em passeio pela COLEÇÃO BRASILIANA ITAÚ reunida por Olavo Setubal, mentor e realizador do Centro Cultural Itaú, vemos nosso olhar sendo construído ao longo dos últimos quatrocentos e poucos anos por estrangeiros, e mais recentemente, por nós mesmos, contra e à favor, mas sempre em relação. Fizemos de nós, o que vimos nos espelhos dos olhos que achávamos reconhecer como padrão civilizatório. Desconhecidos senhores de arbitrários conhecimentos, desenhistas, pintores, gravuristas, maravilharam-se com o impacto dos “absurdos do Novo Mundo”. E somos parte desse mundo inventado por seus preconceitos e delírios. Fomos construídos pelos olhos dos Outros. Ainda hoje, sermos considerados “criativos”, “safos”, “alegres”, “simpáticos”, “belos”, “sensuais” etc,  não passa do desejo profundo de auto-aprovação. Uma história que tentamos nos recontar à exaustão.

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2-Dzi-Croquetes anos 70-s/autoria-Net

Jorge Luis Borges detectou que o povo inglês fora violento, roto e injusto, depois da monstruosidade que perpetrou contra seu próprio povo durante o processo cruento da Revolução Industrial. Tantas crianças torturadas por 18 horas de trabalho desde os cinco anos de idade e tantas outras atrocidades, construíram uma sociedade imunda, cruel e esmagada pela humilhação e a exploração, ampliando uma enorme concentração de renda nas mãos da nova classe burguesa, por mais de cem anos. No Século XIX o historiador Thomas Carlyle recriou a História da Inglaterra para os próprios ingleses, recontando as trajetórias de antigos piratas e assassinos com traços da grandeza de um povo altivo, conquistador e potente. Formou as bases ideológicas e simbólicas da futura invasão de povos pela Inglaterra, fundando a Gran-Bretanha imperialista, com o maior número de povos anexados até a II Grande Guerra do século XX.

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3-THEODORE de BRY – Satoutiona na preparação para a guerra – 1592

A narrativa que embala nossos sonhos e pesadelos acaba por construir nosso temperamento, e parece que nosso olhar foi se tornando anedótico, construído que foi, por indivíduos rígidos, sisudo, desagradáveis como os senhores europeus que viram nossos hábitos com grande horror e crítica, oscilamos entre crer que somos agradáveis e gentis, mas também exóticos, instáveis e vingativos. Quando agarramos o espelho para olharmos o que viam em nós, não fomos menos cruéis. Mas sem saída, tornamos essa percepção uma anedota inconclusa. O Modernismo abraçou o exotismo, e o Tropicalismo tornou a ideia uma vantagem – dando atualidade à obra de Gilberto Freyre de 1933. O fato é que, ainda estamos em formação. E não chegaremos a lugar algum, pois nos desdobramos em possibilidades – entre o estapafúrdio e o encantador. O melhor disso tudo é que rimos de nós mesmos, mas o pior é não confiarmos no que enxergamos.

4. DU VIERT E MARIETTE - Tupinambás levados para a Europa - 1613

4. DU VIERT E MARIETTE – Tupinambás levados para a Europa – 1613

Quando percorremos a exposição do Itaú, tentamos reconhecer os retratos que faziam de nós desde o começo, e descobrimos que não passávamos de jaguatiricas enjauladas para alemães, holandeses, franceses e espanhóis se deliciarem com tantas idiossincrasias. Desenharam, pintaram e gravaram um povo que, a despeito de terem sido colonizados por europeus, desenvolveu hábitos e maneiras estranhas, híbridas, com traços orientais e a modernidade do capitalismo do momento – o mercantilismo.  Impulsionados pela forma primeira do Capital Ocidental, acompanhavam os traços imperativos desse tipo de ocupação territorial, anexando terras orientais em viagens planetárias, associando a danosa escravidão, e produzindo traços de uma inexplicável preguiça responsável por uma informalidade e frugalidade só explicável pelo abuso do escravagismo. Nas narrativas de Gilberto Freyre desde Casa Grande e Senzala, aqueles portugueses que começam a ocupar estas terras, já vinham de misturas culturais muito distintas do resto da Europa, com seu convívio com mouros e judeus, gente de pouca lida com a terra, e grande intimidade com as trocas. Quando aqui aportavam, vinham de viagens às Índias e China, levando e trazendo bens e costumes que, cada vez mais, fizeram este povo de fácil miscigenação e informalidade.

5. J.B. DEBRET – Sala de visitas - 1618

5. J.B. DEBRET – Sala de visitas – 1618

O que nos coloca em patamares bastante humanos e dentro da margem do ridículo colonial, é que a estreiteza desses olhares parte de uma mesma sub-condição humana, discordando de sermos inferiores. A tolice parece um traço da espécie, ou não teríamos sido analisados num plano tão esdrúxulo que auxilia o deboche e o riso generalizado, se assim não fosse. Ainda no século XVII, o grande pintor holandês, Albert Eckhout, impactado com as figuras indígenas que pode conhecer, nobremente as retratou com altivez, elegância e mesmo, beleza com todas as suas estranhezas, incluindo uma sandalinha que a ele pareceu mais confortável e digno, tapando sua genitália por respeito aos limites de sua religiosidade pudica. Mas não buscando a compreensão cultural dos comportamentos indígenas, fez questão de registrar um dos traços mais marcantes de nossos grupos sociais brasileiros pré-existentes: o canibalismo. Com total falta de entendimento das condições e motivos que esses rituais eram vivenciados, Eckhout pintou uma índia tapuia, grandiosa e maravilhosa, com mais de 2,70m de altura, descrevendo a seu modo essa peculiaridade dos povos autóctones. Em seu próprio delírio europeu, registra o ritual sagrado da transferência de poderes à instância comunal, para um mero gosto de transportar lanchinhos de carne humana durante seus passeios ou viagens intraflorestais. Na pintura vemos partes de corpos humanos saindo do cesto como uma mochila de transporte, aludindo a meros snacks!

6.Albert Eckhout - Índia Tapuia –1642

6.Albert Eckhout – Índia Tapuia –1642

Nesse jogo de olhares entre o magnífico, o absurdo e o incompreensível, percorremos mais de doze mil itens de uma coleção fundamental para nossa própria percepção enquanto jovem nação, mas também enquanto humanos e meros animais que afinal somos, fornecendo uma balança onde as mazelas, deleites e diversidade que nos olharam e registraram, garantindo  a importância de se conhecer essa exposição que fala de nós mesmos, não apenas em retratos, mas também em outras referências como selos, moedas, livros e tantas preciosidades produzidas por estas plagas desde o final do século XVI ao final do século XX.

SERVIÇO: Coleção Brasiliana Itaú – Centro Cultural Itaú  – Av. Paulista, 149 – Espaço Olavo Setubal.

Publicado também na Revista Zupi de Arte e Criatividade: http://www.zupi.com.br/construcao-olhar-nacional/

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