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A ESTÉTICA COMO CONTROLE DE PODER: A ETIQUETA

Etiqueta se confunde com boa educação e boas maneiras, mas também com frescura, chatice e perda de tempo. É preciso lembrar que a etiqueta não é mera perfumaria, não é acessório, nem a busca inofensiva pelo belo, já que foi parte de uma estratégia para manter coeso e estável, um país que atravessava um momento extremamente explosivo.

O rei Luis XIV (16431715) decidiu reunir vassalos sob seu teto – o megapalácio de Versailles, para evitar que a nobreza organizasse exércitos contra a monarquia que se queria absoluta. Agrupar parentes tão poderosos, chefes de exércitos grandiosos, habituados e treinados para defesa e confronto, mesmo sob vigilância, demandava uma estratégia para garantir a ordem. A burguesia financiadora do exército do Rei Sol exigia privilégios junto à corte real, e a nobreza usou a etiqueta mais refinada e rebuscada que o Ocidente já conheceu para se distanciar dos toscos plebeus. 

2. Versailles em 1668 – Palácio e Jardins

Viver no magnífico Palácio de Versailles demandava uma liturgia carregada de símbolos sensíveis, aos moldes de Jacques Rancière (A partilha do sensível: estética e política), onde a beleza se punha a serviço da política, através de seus muitos ritos, regras simbólicas, dificultando aos estranhos a esse mundo sofisticado e ensaiado, uma interpenetração que garantisse distanciamento dos plebeus, mesmo que os nobres, em situação de derrota frente ao rei, pudessem garantir seus muitos séculos de privilégios, domínio e prestígio. O impacto causado por suas figuras, gestos e vestimentas construíam um mundo apartado do cotidiano medíocre que os veria, forçosamente, como figuras sociais espetaculares, desumanizadas e inexpugnáveis. Seus códigos, rituais e maneirismos passava muito além da gentileza ou da beleza, trabalhando um escopo complexo de regras garantidoras de seus distanciamentos.

Gestos contidos, estudados e bonitos já haviam sido usados para conter situações de perigo. No século V d.C. o feudalismo europeu foi se estruturando com o desmonte do Império Romano e o abandono das antigas colônias romanizadas. Uma sociedade rígida se organizou para enfrentar séculos de batalhas: os camponeses produziam comidas, o clero dava conforto às almas e a nobreza guerreava! Responsáveis pela defesa do feudo, os nobres aprendiam a lutar desde os sete anos de idade. Carregando armaduras e armas muito pesadas, treinavam por toda a vida em justas, caças e embates reais. Para conter tais criaturas bélicas, as ‘Leis da Cavalaria’ moldaram espíritos dóceis, caridosos e servis, desmontando o perigo da arrogância e violência dessas máquinas de matar.  Apesar dos tempos violentos, as ‘Leis da Cavalaria’ conseguiram impor um tempo de respirar, em que o impulso não seria permitido aos defensores dos cristãos, e em meio a tantos confrontos sangrentos, nasceram as cantigas de amor, as cantigas de amigo e toda a poesia medieval associada à beleza e à gentileza.

3. Alphonse Mucha – Heraldic Chivalry – 1896 – Controle da violência pela beleza e poesia.

Com a frouxidão dos laços com a Igreja e o fim das invasões, o Renascimento floresce e os nobres tão poderosos, são uns ursos nas maneiras. Grosseiros e sujos  são menosprezados pelos cidadãos mais sofisticados do período como os mercadores da Península Itálica (venezianos, florentinos e outros), assim como os mercadores do Oriente Médio, donos de gestos refinados e sofisticação cultural.

O holandês Erasmo de Rotterdam (1466 – 1536), amigo de Thomas Morus, tenta melhorar os modos dos nobres pela educação de seus filhos através de um manual de maneiras corteses que servira de base pelos séculos vindouros. Humanista e erudito ainda que plebeu, Erasmo se horrorizava com o hábito de jogar ossos das carnes por cima dos ombros, pois avisava ele, provocava grande alvoroço nos cães que por ali aguardavam. Também recomendava que não usassem as mangas dos casacos para limparem suas bocas de gordura, nem permitissem que seus corpos fizessem sons à mesa. Erasmo recomendava que evitassem arrotos, puns e chupada de dentes durante o jantar, e assim por diante. Seu manual de etiqueta (disponível num link abaixo) enfatizava a suavização dos gestos para que não se orgulhassem de chamarem a atenção sobre os demais, instalando regras que a nobreza seguiria, bem como a burguesia logo depois, interessada em ser aceita pela aristocracia e parceiros comerciais mais refinados.

4. Banquete da Nobreza – Musée du Petit-Palais – Nobreza aprendendo a controlar modos à mesa – Iluminura francesa – século XV

Atualmente vivemos tempos nebulosos, grotescos e fundados na busca doentia pelo prazer. Em nome do prazer, a pressa e a grosseria são justificadas. Obsessões pelo consumo infantilizam cidadãos que caçam pokemons ao invés de perscrutarem estratégias dos governantes. Luis XIV também precisava de uma obsessão que aplacasse a sanha de nobres gananciosos e belicosos. A etiqueta, inventada pelo Rei Sol implantou um jogo onde a beleza e o luxo servissem de garantias à condição nobiliárquica de quem melhor as dominasse, evitando assim que o impulso e a insensatez fizessem do palácio um campo de desavenças e assassinatos. Até duelos eram regrados e lentamente executados até a morte de um dos oponentes. Abrir portas, puxar cadeiras, subir escadas atrás dos mais frágeis indicava, não apenas a superioridade física do indivíduo, mas a confiança de sua nobreza de espírito e de caráter frente à realeza e à fraqueza humana, numa manifestação das antigas Leis de Cavalaria que, por sinal, persistem até os dias de hoje, ainda que esmaecidas e já inconscientes.

Com a reunião dos nobres sob um mesmo teto como nossos condomínios, a busca pela beleza e o requinte garantiu melhores relações sociais. Esse olhar estetizado interferiu nas apresentações do próprio corpo, com  danças estetizadas, os minuetos, as vestimentas com os culotes para os homens, as crinolina enormes para as mulheres, tantas rendas e brocados e sim, os saltos altos para os homens – no desejo de se porem acima dos pobres (e tão ricos) burgueses. Equilibrarem-se de ponta reafirmava uma outra silhueta inconfundível com os ‘sem-berço’. E neste momento, mulheres apenas enchiam seus lindos sapatinhos de laços e rendas.

A busca da beleza implica em ‘tempo’ e nunca em pressa, por isso, mesmo com grandes conflitos políticos, a estetização modelou os debates políticos que desenvolveu um domínio das palavras alterando e reformatando toda a produção francesa, que até hoje marca sua produção seja na teoria, na literatura, no cinema e mesmo na moda, de forma nada simples, mas sempre elegante e verborrágica, a onde essa sofisticação da oralidade desenvolveu uma filosofia preciosa e detalhista que se pensou a si mesmo, desde os Iluministas às teorias políticas da futura Revolução Francesa. Tanta sofisticação acabou formando uma sociedade que viu no refinamento do espírito uma superioridade civilizatória que justificaria a ocupação de territórios na África como no Oriente Médio, onde impuseram essa “fala do colonizador’ frente aos “primitivos” povos que sonhou dominar.

5. Bosquet des jardins du Château de Versailles – JBMartin – Beleza como projeto político

E que não se enganem supor que formas de roupa, gestual, fala e até a produção das paisagens não contenham o mesmo projeto ético da etiqueta. Os jardins franceses, geométricos, labirínticos e de uma elegância absurda com suas topiarias, faziam parte da mesma estratégia de controle de seus hóspedes, seus movimentos e gestos, entretidos em fazer destacar seus dotes e conhecimentos de extremo bom gosto. Puros jogos de sedução e poder!

A sinceridade considerada vulgar e perigosa, expunha sentimentos derramados, ridículos e simplórios, traindo origens plebeias, sem a sofisticação da formação erudita e do raciocínio lógico afiado, que deveria permear todas as relações, amorosas ou não, e onde a poesia e a força da estética garantiriam distância do risco da degradação de emoções descontroladas. Onde houvesse o ‘sincericídio’, duelos e assassinatos descontrolados, tornariam a convivência uma pocilga apavorante, prejudicial à estabilidade emocional, à saúde e aos negócios. A etiqueta e seus desdobramentos, a gentileza, a paciência e a razão científica, também serviram de avalista a currículos de cidadãos éticos e civilizados, daquela sociedade em permanente conflito. Não são sempre?

6. Louis XIV na Academia Real de Ciências – Henri Testelin, 1667

Essa estabilidade criada pelo sagaz e midiático Rei Sol irá, no entanto, se mostrar insuficiente quando a França começar a empobrecer pelas guerras externas que o rei se envolve. O magnífico espetáculo que Luis XIV e sua nobreza da época impactaram na pobre e rural sociedade francesa, começará questionar abusos dos privilégios, desaguando, dois reis depois, na famigerada e sanguinolenta Revolução Francesa. A etiqueta tem seus méritos, mas não resolve a injustiça social crônica.

Glaucia de Castro Pimentel

Sugestões para outras informações:

Para conhecer a extravagância da estética como ferramenta do poder, assista a

Vatel, um banquete para o rei.  Informações em: http://www.filmesepicos.com/2011/02/vatel-um-banquete-para-o-rei-2000.html#.WLm4nNLyvIU. Acessado em: 7 mar. 2017.

No Youtube tem o filme Vatel dublado em italiano com legendas em português.

Para ler mais sobre o período: 

ELIAS, Norbert. Processo civilizador, v. 2. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. Disponível em: https://uerjsa.files.wordpress.com/2013/04/elias-norbert-o-processo-civilizador-vol-ii.pdf. Acessado em: 7 mar. 2017.

ROTTERDAM, Erasmo de. De pueris e a civilidade pueril. São Paulo: Escala, 2008. Disponível em: http://www.filosofia.com.br/figuras/livros_inteiros/102.txt. Acessado em: 7 mar. 2017.

Publicado também pela REVISTA DE ARTE E CRIATIVIDADE ZUPI, acessível pelo endereço: http://www.zupi.com.br/estetica-como-controle-de-poder-etiqueta/

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