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AS SAGRADAS

A peça As Sagradas, começa num ritual. Muitos símbolos são imediatamente postos em cena: o círculo, o fogo, o canto mântrico, mulheres em postura reverencial. Sabemos que testemunhamos um outro tempo e lugar. Com texto e direção de Rene Ramos Amaral, uma história é construída à partir de uma notícia que surpreendeu a todos, quando um grupo de prostitutas  do Quênia, país assolado pela Aids, apresentou-se livre do HIV. Mesmo forçadas a vender seus corpos sem proteção, como é comum em sociedades patriarcais, essas mulheres ganharam jornais mundiais. O impacto desse mistério provocou o autor na formulação de uma história cujo mote partiu da constatação desse fato mágico, buscando ambiente ancestral que ainda pulsa, por força de nossos próprios desajustes civilizatórios.

A peça ecoa nas palavras do mitólogo Joseph Campbell n’O Poder do Mito, do antropólogo Victor Turner em seu estudo do teatro social n’O Processo Ritual, e ainda com Sigmund Freud no basilar Totem e Tabu. Todos esses estudos produzidos no início do século XX, já incluíam questões das mulheres em suas análise e dúvidas, abraçadas pelas Ciências Sociais como um todo e, à partir daí, avançando sobre as distinções de gêneros para além das meras diferenças biológicas e de genitálias.

No enfoque da peça vivemos tempos líquidos, rápidos, impessoais, em que o sagrado foi extinto em prol da velocidade e do fluxo. Fluxo de mercadorias, fluxo de novas relações, fluxo das redes sociais. A rapidez, no entanto, não nos fez mais civilizados ou autônomos. Ainda não passamos de Neandertais assustados, sofridos, confusos e, quanto mais encurralados, mais animalescos nos tornamos. Nossas angústias não se esvaziaram com a descoberta da penicilina, da cama-box ou do celular. Continuamos olhando aturdidos os Mistérios inexpugnáveis que provam nossas insignificâncias frente ao Sagrado.

 

Na falta do conforto de uma vida comunitária, fraterna e reverente, inventamos formas diversas de enfrentar o Desconhecido que variaram de acordo com as Eras, Etnias e Regiões do planeta, quase sempre impostas aos grupos onde surgem como as Verdades definitivas. São novas regras, novos pecados, novos ritos, novos tabus, novas religiões que de um lado aliviam nossos abandonos cósmicos, mas de outro cerceiam desejos de expansão e experimentação.

Tornamo-nos presas fáceis de medos e inseguranças. Mulheres mais do que homens que, aturdidos com tantas incógnitas, tentam restringir os enigmas que se manifestam nos corpos femininos. Corpos que se movimentam conforme a lua, conforme as águas dos rios, das marés, reagindo junto com as plantas e parindo com os animais, de modo imperioso porém nada  submisso, em uníssono à natureza. Corpos que largam sangue, que carregam o futuro da espécie em seu bojo, e perturbam tribos com suas curas e envenenamentos pelo conhecimento das plantas, assim como por suas instabilidades imprevisíveis. Seriam bruxas? Seriam Sagradas? Ambas? Como lidar com seres com tais reflexos naturais? Só a força as domina, sendo perseguidas, assassinadas e aprisionadas não raras vezes, dado o desconcerto de suas certezas em imagens associadas ora à proteção, ora à fertilidade, ora aos riscos dos imprevisíveis e seus botes.

 

Segundo Campbell, a supressão dos ritos não eliminou os laços que nossas mentes estabeleceram com os tempos imemoriais, confirmados pela identificação dos símbolos, como constatado por C.G. Jung estudando o Inconsciente Coletivo onde todos os arquétipos permanecem intocados, mesmo que perdidos na memória. O Guerreiro ainda está lá, seja macho, fêmea ou outro gênero que os deuses reconheçam. Também lá identificamos a Mãe arquetípica, a Provedora, a Fértil, a Fraterna, a Espiritual, a Amante, a Velha, a Sábia, a Julgadora, a Feroz, a Caçadora independente e outras imagens reconhecíveis na peça As Sagradas, onde antigas deusas manifestam referências que denotam nossas origens.

Nesse jogo cênico alimentado pelas sete atrizes, reconhecemos as bases que formaram a cultura Ocidental, reunindo o Olimpo a muitos outros céus, como os que servem aos budistas, aos Massai quenianos, aos Zulus, ao Nirvana nórdico, às florestas indígenas onde ainda vive a velha Iara, a grande Serpente e todos os nossos sonhos esquecidos. Na arena sagrada do teatro, reconhecida como local de nossas catarses necessárias como disse Aristóteles, as leis contemporâneas que nos cercam não passam de efemérides descartáveis no tempo das Alianças e dos Mistérios, com laços fundidos sobre os fogos que não se extinguiram, pois forjados que foram no Sagrado que ainda vive.

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