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BLANCHE na versão de ANTUNES FILHO

Tennessee Williams, dramaturgo estadunidense escreveu uma peça em 1947 ambientada na sufocante New Orleans, cidade sulista onde culturas tão díspares convivem sob pressão em bases afrancesadas. Com traços da religiosidade vudu haitiana com seu imperativo de mistério e perigo, mistura-se a uma sociedade operária em formação, numa região pobre e pouco industrializada do EUA durante a II Guerra Mundial, onde dificuldades de sobrevivência tornam instáveis os humores na incerteza pela sobrevivência.

São tempos difíceis, cheios de instabilidade e carência, que dá pano de fundo a um jovem casal, recém casado, que recebe, inesperadamente, a irmã que vivia numa fazenda perdida para a crise financeira do país. Blanche é essa personagem, irmã de Stella, casada com Stanley, um operário de ascendência polonesa, tosco e brutal, que dão abrigo a essa moça visivelmente infeliz, fracassada, desconfiada e humilhada pela vida. Com formação sofisticada e aristocrática, Blanche maldiz seu destino, mas não abandona a visão hierárquica que tem do mundo, desprezando Stanley e alertando Stella sua malfadada escolha. No ar a arrogância de Blanche, sua fragilidade e dependência contrastam com a falta de traquejo em lidar com uma situação criada por ela mesma e os ânimos se conflitam.

Blanche não é linear, nem transparente, nem óbvia. Ela carrega conflitos de classe social, das conseqüências de perdas de patrimônio, e ainda Blanche é vitima de seu próprio isolamento pessoal, afetivo e sexual. Figura sem definição rasa, oscila entre a repulsa e a compaixão. Vitimiza e se vitimiza num universo que debate o luxo e o lixo, o Eros e o Thanatos, o sagrado e o grotesco.

Memórias - 2- Evelson de Freitas

Memórias – Foto: Evelson de Freitas

Blanche é a personagem central de Um Bonde chamado de Desejo de Tennessee Williams, transitando entre mundos, rasgando a própria carne por um refinamento que já não há. Deslocada e sutil, hesitante e esnobe, Blanche conversa com nossos desconfortos tão comuns, tão recônditos, tão vis, tão imprecisos. E não bastasse essa figura incerta, instável e humana, foi recriada nesta montagem – perfeita como tudo o que o CPT (Centro de Pesquisa Teatral, onde Antunes Filho e seu grupo) propõe à linguagem teatral, anexando camada sobre camada, pois além de suas contradições e fragilidades, Blanche é transgênero!

Em condições limítrofes de carência e estranhamentos, a peça cruza por conflitos de classe, isolamentos tácitos e ontológicos, que se ampliam pelos cruzamentos de mundos. Blanche invade intimidades e é invadida em sua intimidade, quando estes mundos se chocam tão intrincadamente, tão humanamente, tão cruamente.

ESTUPRO MADEMOSEILLE BLANChE - Foto: Ines Correa

Mademoiselle Blanche e o rude Stanley – Foto: Ines Correa

Não bastasse navegar por realidades limítrofes, ouvimos Blanche dizer  “AVALAQUE CELEBLAN  –  DIZINCE NE TUCHE ALVOGUE COPKE” –  numa língua que soa entre o francês, o eslavo, o sonho e a loucura. E é então que, definitivamente sabemos que estamos em cena – dentro de uma dramaturgia onde a regra é a potência na vida. Estamos ouvindo “Fonemol” e ainda assim não nos perdemos. Corpos mergulhados neste universo patético e sensível, identificamos suas expressões e questionamentos. Percebemos aturdidos e maravilhados que acompanhamos um discurso inteligível mesmo que inverossímil.  E invocamos Jacques Derrida citado por Antunes na apresentação da obra: “A arte não é a imitação da vida, mas a vida é a imitação de um princípio transcendente com o qual a arte nos volta a pôr em comunicação”.

Blanche

Blanche  – Foto: Ines Correa

Mergulhando em Tennessee Williams somos arrastados ao solo sagrado do Teatro com letra maiúscula em toda sua ancestralidade, quando diluímos nossos egos em favor de um outro sentir que não se adapta, que não se dilui no impacto dos desejos violentos. Essa percepção permanece a despeito das muitas leituras que uma obra dessa natureza favorece, quando a insanidade percorre vencedores e vencidos, e a arte se instala entregando as chaves do entendimento às nossas emoções.

Tal montagem não subestima a capacidade de penetração dos presentes, doando um desfecho e uma leitura ‘comprada na bilheteria’, mas por outro lado, nos banqueteia com camadas e camadas de vivências que se apresentam através de sustos e cumplicidades, propostas pelas mãos inquietas de Antunes Filho e um grupo de atores azeitado, que se desdobra a nossos olhos, numa trama densa e primorosa.

SERVIÇO: BLANCHE
    Espetáculo no SESC CONSOLAÇÃO até dia 29/04/2017
    Quintas e sextas-feiras às 20h, e sábados às 17h.

 

 

 

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