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DESEJO E VIOLÊNCIA – Exposições na Caixa Cultural

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Março é o “mês da mulher”. A Caixa Cultural da Praça da Sé preparou exposições fundamentais para o tema até maio. Mulher não é tema de todos os meses do ano, salvo em páginas açucaradas de revistas destinadas à veleidades, ou páginas policiais ensanguentadas. A partir do mês da mulher, a Caixa Cultural oferece duas exposições que lidam com a crueza do Desejo e seu subproduto mais vil: a Violência.

Herbert Marcuse durante o ano revolucionário de 1968 alertou sobre os perigos das pulsões do Desejo e da Destruição: Eros e Tanatos na formação das organizações sociais. Sem que esses impulsos sejam balizados pela colaboração e a solidariedade, o descontrole só levará ao confronto e frustração. Marcuse propôs o uso do erotismo no combate ao moralismo que empobrece a experiência humana. A verdade é que sem a Diversidade não há Civilização. 

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A exposição “VEIAS – NÃO É SOBRE FOTOGRAFIA” já alerta no título que o que importa não é o virtuosismo da linguagem fotográfica, mas a crueza das relações humanas – sempre inesperada, desigual, sempre fora dos controles, visceral. Anders Petersen e Jacob Aue Sobol, aclamados fotógrafos escandinavos da Agência Magnum, partem em viagens pelo Planeta por suas veias profundas. Neste plano os adjetivos não definem o que possa ser a crueldade, o desejo, a opressão, o abandono, as veias abertas da existência, mas o impacto causa estupor e compaixão, espelhando o drama barroco de Caravaggio do claro-escuro em seus embates de carnes – carnes cruas.

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No mesmo diapasão outra exposição expõe feridas abafadas pelo(s) “SILÊNCIO(S) DO FEMININO”. Nessa mostra mulheres, e somente mulheres, delatam o cerco. Os olhares dos visitantes denotavam fortes impressões. Mulheres aceitam os diálogos provocadores com sorrisos nervosos, enquanto alguns homens são envoltos pela empatia, e outros, rejeitam o que sentem ser “um mundo alheio”. De fato, não é para os fracos, e a arte não facilita leituras. Com narrativas tão poderosas, a indiferença não fez parte das impressões. Nessa reunião de obras tão agudas e afiadas sob curadoria de Sandra Tucci, cinco mulheres expõe suas visões de um mundo marcado pelo apequenamento de direitos que lhes são próprios.

Beth Moysés propõe a vivência de se ouvir conselhos por um fone de ouvidos. Gentis mas firmes, padres ensinam mulheres a abandonarem seus homens violentos. A sensatez lida com um rompimento nunca óbvio, nunca simples. É a rima mais pobre do “amor e dor”. Lia Chaia sobrepõe camadas entre o belo e o bizarro em corpo grávido num balé lambuzado em purpurina. Rosana Paulino produz ambiências de mergulho histórico, onde a negra escravizada, usada como matriz de produção de escravos é apresentada em bordados delicados sobre suas vísceras humanas. E assim, com linguagens canônicas, mas também no uso de instalações, costuras, construções e videoarte, atualizamos um repertório que ultrapassa teorias plásticas, antropológicas ou sociológicos. Somos postos em presença aflita e pertinente, de nossos próprios desconfortos.

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Com Cris Bierrenbach percorremos uma parede onde fotos enormes de mulheres de vários mundos profissionais e interesses, apresentam-se com os rostos alvejados por tiros de calibres diversos e, no título Fíred, um arrepio lembra os riscos de uma misoginia anacrônica e indigesta. Com estatísticas assustadoras, o feminicídio tem sido o crime da moda e nem com o agravante de penas na legislação atual, pode-se comemorar algum alívio.

Em todo o caso percorrer esse anti-santuário de leituras deformantes, nos leva à Marcela Tiboni com seu “ESTUDO PARA DESENHO DE CORPO FEMININO” onde o poder tenta se impor pelo domínio de um corpo que se faz labirinto de tragédias sem vencedores. A beleza indomável, calada, se vinga na distância, no infortúnio, na solidão.

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Com Lukács aprendemos que a análise da realidade pode se dar pela Ciência ou pelas Artes. Esta exposição oferece frações de uma realidade onde a beleza, o domínio e crueza dos desejos oferecem caminhos da violência, mas também de uma Civilização em construção.

As exposições estarão na Caixa Cultural da Praça da Sé em SP até 08 de maio de 2016.

Vale (muito) a visita.

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