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O AZUL e o ROSA na definição de GÊNEROS

A cor rosa está associada às meninas e a cor azul define os meninos. Meninos devem usar azul, salvo se quiserem ser ousados desafiando as regras de gênero impostas pela moral sexual hegemônica. Cores são impostas para que orientações sexuais e de gênero não possam ser postas em cheque. A Barbie, símbolo de uma feminilidade preocupada com beleza, graça e elegância, tem ênfase no rosa, e são sempre consideradas bons presentes para menininhas que precisam aprender como uma ‘mulher moderna’ deve aparentar. Desde recém nascidas crianças são demarcadas pelos pais através da suas genitálias. Meninas com rosa, meninos com azul. 

Existem explicações mais comezinhas sobre essa ‘demarcação’ de gêneros. Lemos em sites que houve escassez de tintas num dado momento dos anos 1920 e por isso o rosa virou imposição, ou podemos ser informados por outros sites que se surpreendem com a forma aleatória na escolha das cores, e enfim, a origem e motivos se perdem nos tempos. Artistas se divertem com essa dicotomia que invade as indústrias da moda, dos brinquedos, dos nichos das tribos urbanas, das festas infantis, etc, numa ‘aparente’ escolha por gosto, preferências atávicas ou inocentes construções de modelos de beleza. No site abaixo, no entanto, vemos fotos que flagram essa manifestação de gênero às raias da loucura:   http://www.jeongmeeyoon.com/aw_pinkblue.htm . Sob avalanches de um único estímulo visual, a imposição das cores esconde uma construção de gênero por onde passam moralismos religiosos, hierarquias sociais e as nada inocentes homofobias e misoginias subjacentes.

Muitas de nossas referências culturais possuem origens nebulosas, algumas comprováveis, outras dedutíveis. A razão da associação do rosa e do azul como gênero refere-se às grandes contribuições de Marco Polo à Cultura Ocidental. O intrépido mercador se embrenhou pelo Extremo Oriente por 24 anos após cair nas graças do poderoso monarca Kublai Khan (Polo viajou de 1275 a 1292 aproximadamente). Sem condições de conhecer seu reino, Khan pediu a Polo que viajasse para lhe contar o que via com seus olhos estrangeiros. As narrativas dessas andanças foram escritas em As Viagens, e também em  O Livro das Maravilhas.  Com olhos de poeta Ítalo Calvino imagina o impacto desse universo mágico e misterioso que seria vivenciado por Polo e escreve o seu Cidades Invisíveis, numa das melhores traduções das perambulações da filosofia-poética.

O que sabemos é que da longa viagem ao vasto território mongol, Polo trouxe a pólvora, o papel, a bússola, os fogos de artifício, a porcelana, o dinheiro de papel, a pipa-papagaio e tantas outras mercadorias, costumes e novidades, além do budismo que era professado por Khan. Mas assistindo a culturas tão diferentes como Tibet e Burma, Polo fez suas próprias inferências do que assistia. Com olhar de mercador cristão medieval, trouxe tudo o que pensou ser interessante na esperança de lhe render fama e fortuna, o que de fato aconteceu. Mas se compreendeu a China …. é outra história.

Esperar que indivíduo tão pouco informado sobre culturas tão estranhas, das quais, aliás, pouco sabemos até hoje, imagine a quantidade de equívocos e malentendidos que suas leituras não cometeram! O macarrão trazido por ele era na origem de arroz, mas foi adaptado para o trigo, mais abundante na Veneza do século XIII. Esse escorregão prova que nem tudo que nos chegou do Oriente, passou incólume por Marco Polo. Outra adaptação temerária do intrépido viajante-comerciante foi a compreensão do complexo e impalpável TAOÍSMO. Como cristão medieval para quem a verdade se comprovava com sangue, sacrifício, carne e submissão por crucificações ou martírios, o Taoísmo parte da compreensão de um Universo único onde os humanos, plantas, pedras e animais, fazem parte de um mesmo fluir cósmico, místico e material equilibrado por seus opostos complementares. Entender o Taoísmo é pensar um mundo sem hierarquias, sem divindades acima e além, sem melhor ou pior, apenas coexistentes e solidários. Um não existir sem o outro, um sendo enriquecido por seu oposto.

TAO – Yin Yang

 

No Tao nada é fixo, nada existe em si mesmo. Só entendemos o seco pelo molhado, o quente pelo frio, o claro pela existência do escuro, o masculino por seu oposto complementar feminino, e assim por diante. Representado pelo círculo perfeito, o azul profundo casa-se com o vermelho profundo, mas nunca maciços e fechados, pois seus opostos complementares estão inseridos bem no meio de suas áreas mais amplas, marcando a presença do que lhes é oposto, num eterno interpenetrar-se.

O Uno é o TAO, e esse todo não lida com pecados, nem maldições ou martírios. O Tao propõe a serenidade na vida, no sexo, no seio do universo. Marco Polo viu meninos usando azul e meninas usando rosa. Costume desconhecido no Ocidente. Mas não se deu conta que a cor trocada servia para estimular seus opostos complementares. Dividido entre o Yin (lua, terra, úmido, azul, água, feminino, escuro, macio, etc.) e o Yang (seco, solar, vermelho, fogo, masculino, duro, etc), é no complementar que o mundo se enriquece desde os vegetais ao Cosmos e toda a humanidade.

Cidade de Diomira, do livro de Italo Calvino “Cidades Invisíveis” – por Sanchari De

Para o Taoísmo homens muito Yangs são toscos, violentos, ogros, rápidos demais para compreender, sentir, digerir, assimilar, ajudar, ou seja, perigosos e nefastos. Mulheres muito Yins são fracas demais, moles demais, lentas, assustadiças, inseguras demais, e por isso mesmo também perigosas e nefastas. Taoístas sabem que homens equilibrados e mulheres equilibradas são alimentados por seus opostos complementares, por isso, desde crianças são rodeados pelas cores de seus opostos, para que cresçam firmes e generosos, reconhecendo o Outro como fonte de sua própria diversidade e grandeza. Azul Yin para os meninos, e Vermelho Yang para as meninas, mas como bebês e crianças, usam os tons pastel por serem mais amenos e serenos. Azul bebê e rosinha não são, portanto, cores definidoras de orientações sexuais, nem garante nada disso. São apenas auxílio no equilíbrio de seres humanos mais felizes e generosos, numa CONSTRUÇÃO ÉTICA que embasou o futuro Confucionismo, filosofia preocupada na Organização Social como parte desse Cosmos a ser formado como um bem integral, com suas contradições e interpenetrações, numa responsabilidade social ampla e recíproca.

 

Marco Polo nos povos do Oriente

Da maneira como foi trazida para o Ocidente, o uso das cores rosa e azul tornou-se apenas um exotismo do Oriente perdido no tempo e recuperado para um determinismo moral associado à religião cristã e o mercado. A graça dessa contradição é pensar que machistas insistem em colocar a cor azul – do mais puro Yin feminino – em seus filhos varões, na ânsia preconceituosa e inútil, de garantir um gênero sexual sem dúvidas para suas vidas.

 

Refências Bibliográficas:

POLO, Marco – O Livro das maravilhas

POLO, Marco – As viagens

CALVINO, Ítalo – As Cidades invisíveis

LAOZI  ou LAO TSE – Tao Te Ching

 

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