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PERFORMANCE: A LINGUAGEM INVISÍVEL

 

IVALDO GRANATO

IVALDO GRANATO

Quando pensamos em História da Arte, ainda ouço professores que se atém na sequencia de Escolas ou de Criadores, esvaziando as bases históricas de determinado movimento, criação ou regra criada, quebrada ou proposta.

Além da pobreza desse personalismo seletivo, onde anônimos fundamentais são ignorados, e onde grandes criadores não-partícipes do quadro de poder eleito pela historiografia oficial, passam a fazer suas eleições excluindo intencionalmente, todos os que não eram egressos do clubinho “Branco, Masculino, Hétero e Europeu”, adotado como tal ou europeizado. Assim, mulheres, índios, outras etnias, outras orientações sexuais explicitadas, foram sendo esmaecidas, apagadas, ou sendo relidas como meros coadjuvantes nos grandes marcos do panorama da história da humanidade – Ocidental ou não. Podemos citar algumas mulheres resgatadas do ostracismo como Camille Claudel (artista sensível e frágil, tida como mera amante e serviçal nos trabalhos do escultor Auguste Rodin, que enlouqueceu desacreditada e alijada) e Frida Kahlo, que tendo vivido à sombra do famoso Diego Rivera, morta em 1954, foi resgatada pela crítica e mercado há não mais quinze anos.

Não bastasse o cânone mesquinho e falacioso, ainda ignoram as pesquisas fascinantes que outras linguagens de Artes seguem ousando como a PERFORMANCE e o VÍDEO.

Por total falta de interesse ou de imersão no campo das artes, percebo que professores de História das Artes ignoram ou confundem essas linguagens, supondo-as anexas ou desdobradas de outras linguagens e técnicas de domínio comum. Na verdade essas linguagens deixaram de pertencer a um campo de ação único e clássico, confundindo leituras desavisadas.

ESTER FERRER

ESTER FERRER no Festival de Música de Alicante em 2012

A PERFORMANCE mistura técnicas de Artes Cênicas por causa do uso da atuação de indivíduos frente a uma platéia, mas na verdade a performance usa a movimentação dos corpos propondo uma perturbação ou interferência de seus movimentos no espaço e nos ambientes, o que agrega as ideias e intenções da dança, das Artes Plásticas e outras que possam participar do projeto. Mas não é só, já que, por ser um ato momentâneo e volátil, fazendo uso frenquente da fotografia e do filme, na intenção de registrar a EXPERIÊNCIA no Outro, mais estas linguagens lhes são próprias. Com mais estas ferramenta, a PERFORMANCE soma o cinema ou vídeo à sua linguagem, sem respeitar, no entanto, o percurso de nenhuma dessas linguagens, que com mais de cem anos, possuem usos, técnicas e truques desenvolvidos por seus autores e pesquisadores, uma vez que, para os performers, o percurso, o jogo e a instantaneidade é o que vale e não o produto do filme ou da fotografia em si.

Performance não nega outras linguagens, mas se apropria sem respeito às suas regras. É assim quando as filmagens não possuem as sutilezas de uma iluminação cuidadosa, porque na Performance o que se busca, é o momento. A memória que resta. NÃO UM PRODUTO. O produto da performance é a VIVÊNCIA , no sentido Benjaminiano do termo (Erlebnis – exposto em vários textos, como no Sobre alguns temas em Baudelaire) –relacionando a vivência  com o Choque, o imediato, o susto, o inesperado, na construção da memória.

MARINA ABRAMOVIC em REST ENERGY com Ulay em 1980

MARINA ABRAMOVIC em REST ENERGY com Ulay em 1980

Com uma linguagem tão pouco “vendável” é natural que ainda não estejamos estimulados para sair de casa e ver uma performance, como hoje acontece com Concertos, Shows, Exposições em Museus, etc. São poucos os eventos produzidos por Museus e Centros Culturais, como aconteceu recentemente com a mega-star Marina Abramovic (fala-se Abramovitchi), que esteve no Brasil em 2014 no Sesc Pompeia, num evento que promoveu com holofotes, tanto a própria Marina, quanto a linguagem, num primeiro grande evento de performers que puderam dialogar com Marina e suas técnicas e temas, formando um debate de muitas facetas. A passagem de Abramovic foi um marco cultural na cidade de São Paulo, mas mesmo assim, não se pode dizer ainda, que a Performance em si, tenha sido alçada ao status de linguagem canônica no mundo das Artes, como são a pintura, a escultura e mesmo as mais recentes como a Fotografia e o Cinema.

Para ser franca, este pequeno post não poderá dar conta de tantas questões que esta linguagem propõe, até porque, sequer entre seus performers mais famosos como Ivald Granato no Brasil (usando o humor para ironizar os cânones), Ester Ferrer da Espanha (desafiando a compreensão do cotidiano) e a Abramovic da Servia (desafiando os limites do corpo), lidam com as mesmas questões, ou desenvolvem ações com as mesmas ferramentas estéticas enquanto performance.

Na Performance tudo vale: Música, dança, equipamento eletrônico, ou simplesmente ficar sentada por 8 horas seguidas encarando um voluntário do outro lado da mesa, tudo é performance! Por isto este assunto não tem como ser fechado numa definição.

MARINA ABRAMOVIC– no MoMA em 2010 – THE ARTIST IS PRESENT

MARINA ABRAMOVIC– no MoMA em 2010 – THE ARTIST IS PRESENT

O melhor para conhecer um pouco mais de seus avanços e pesquisas é ler os poucos livros que tratam do assunto, e que apresentam a Linguagem além de algumas de suas várias vertentes que formam um mundo variado e esquivo de se deixar definir. Como material de pesquisa inicial seriam interessantes os livros do COHEN, Renato – Performance como Linguagem/ de GLUSBERG, Jorge –  A Arte da Performance/ de PICADA, B; Mendonça, Carlos e CARDOSO, Jorge. Experiência estética e Performance.

Pesquisar alguns vídeos da Marina Abramovic no Youtube que não são raros serão, com certeza bem interessantes, e abaixo um link do Canal Curta sobre o tema, chamado Shoot Yourself, dirigido por Paula Alzugaray e Ricardo Van Steen de 2012: http://canalcurta.tv.br/pt/filme/?name=shoot_yourself, onde várias leituras da linguagem são apresentadas. Recomendo a Performance de Esther Ferrer no Festival de Música de Alicante pelo Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=hxWdugYrNl4.

Apresentado também na Revista Zupi de Arte: http://www.zupi.com.br/performance-linguagem-invisivel/

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