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SURREALISMO: A SUBVERSÃO DO SELF

  1. Magritte – La reprodution interdit – 1937

Toda dor leva ao abismo. Viver é um caminho assustador, tropeçando em realizações, pesadelos, humilhações, gargalhadas, abusos ….. o desconhecido. Dar nome à dor é se furtar ao abismo da existência. Dar forma ao monstro é apaziguá-lo, é negociar com ele um topos, uma classificação, uma domesticação. Por isso o Surrealismo é uma via certa de circular do pânico ao sonho, e do horror ao combate.  E que não se confunda o não-compreendido com o não-existente, ou não saberíamos dos belos e loucos fractais. Daí o Surrealismo ser um jogo de abismos que reflete a vida, dela extraindo seu patético, seu exótico, seu absurdo, seu impacto maior. 

2. Dali passeando um tamanduá (brasileiro?) em Paris - 1960

2. Dali passeando um tamanduá (brasileiro?) em Paris – 1960

O Surrealismo guarda forte identificação com ideais libertários, abraçando infinitas contradições. Viver sem a calma da explicação é aceitar viver em suspenso. Sem certezas que não passam de hipóteses teóricas agarradas por cansaço ou covardia. Nossa histeria por alegrias e certezas falseia os selfies aborrecidos de tantos faces, tantos instagrans, tantas outras vias de auto-enganação. Construir ilusões sobre ilusões… sobre ilusões…. pode nos levar às nuvens da melancolia, num inventário de agonia.

Nem sempre essa ousadia foi projeto Surrealista. No começo, Breton pretendia chancelar as experiências de acordo com sua visão de autenticidade, mas excluindo Dali e Artaud, libertou o movimento a seu próprio caminho de sonhos e pesadelos, já que estes artistas romperam com a “escola” que Breton pretendia controlar, inutilmente. Breton, invejando a sequência dos vanguardistas, desejou ser o patrono e mentor daquele fluxo que se derramava a partir do inconsciente. Ledo engano. O Surrealismo não se deixou agarrar. Verdades e Certezas não constam dos meios de concepção das obras, ainda que, num segundo momento, a execução passe por certo controle, claro, mas a invasão do espírito, este vem do desconhecido, e a falta de objetividade e convicção, fez desse movimento, nunca uma escola, mas um labirinto de lúcidos insanos.

3. gediminas pranckevicius - autumn-2014

3. gediminas pranckevicius – autumn-2014

Viver em suspenso, entre as certezas científicas e religiosas de um lado, e a dúvida porosa e aventureira de outro, foi vista por Antonin Artaud (Linguagem e Vida, p. 209) como uma via de viver em labirinto poético. Mergulhado na Poesia, o indivíduo se separa da mediocridade cotidiana, das certezas rasas e tolas, mas apartado, por conseqüência, do conforto monótono do travesseiro. Viver em Poesia é atravessar um cotidiano-equilibrista, arriscado, louco e visceral.

4. Juan Miró - O Carnaval do Arlequim - 1925

4. Juan Miró – O Carnaval do Arlequim – 1925

O tempestivo movimento SURREALISTA foi marcante por suas obras e atores, mas também pela ousadia de suas ideias. Como disse Otavio Paz, a poesia não salva o Eu do poeta, mas “dissolve-o na realidade mais vasta e poderosa da palavra” (Signos em Rotação, p.222).  Sua radicalidade e grandeza repousam na aceitação do OUTRO por mais estranho que seja, já que tudo cabe no sonho, por “negar a ilusória coerência e segurança da consciência – esse pilar de nuvem que sustenta nossas arrogantes construções filosóficas e religiosas” (Signos em Rotação, p.225).

Em tempos de arrogâncias de uma vida construída sobre sucessos falseados, o Surrealismo pode ser um Projeto Político de alta Ética, como proporia Aristóteles para a Pólis. Sem os perigos das Certezas racionalistas, a dúvida é sempre posta entre os pensamentos – levados pelas dúvidas, os sonhos, o inconsciente, a compreensão das fragilidades e, acima de tudo, sem a credulidade perigosa nas lealdades de partido, de religiões, de verdades afirmadas pela publicidade, das convicções sobre a aparência, a ascensão social e a visão utilitária das relações pessoais. Perder tempo pode ser revolucionário!

5. Magritte - Les Amants - 1929

5. Magritte – Les Amants – 1929

O cientificismo e a religiosidade fizeram morada em mentes assustadiças e humilhadas, levadas a reverenciar, acriticamente, todas as doutrinas  mantidas pela idolatria dos incautos. O medo do abismo seqüestra espíritos frágeis. Embora o racionalismo tenha sido progressista contra a ignorância nebulosa das religiões obscurantistas da Idade Média, a razão também acabou sendo totalitária “em sua necessidade ávida de universalidade,  levando à destruição todas as singularidades” (MATTEI, J-F. A barbárie interior, p. 11). O mundo afunila-se para um único padrão, tendendo à tirania do imbecil.

A diversidade é anárquica e, quase sempre incompreensível, mas é sobre ela que reside a riqueza humana e, mesmo, o processo civilizatório. O resto é apenas medo, arrogância, cobiça e indiferença ao Outro. Duvidar e sonhar – pode ser mais libertário, democrático e corajoso do que seguir gurus de podres verdades. O horror de quem enfrentou a dúvida torna a tirania impossível, por isso a dúvida é saneadora – por conviver com a finitude. Em tempos de confrontos ignaros, de pseudoesquerdas e pseudodireitas, rigidamente trancados em convicções mal costuradas, o SURREALISMO deve ser resgatado em sua coragem pelo inconsciente, pelo risco ao pecado, ao experimento e à dor, enfrentando essa magnífica nebulosa que se chama Vida – não pela certeza, mas pelo se deixar sonhar.

GLÁUCIA DE CASTRO PIMENTEL

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