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SURREALISMO: poesia, delírio e combates

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Toda dor leva ao abismo. Viver é um caminho assustador, tropeçando em realizações, pesadelos, sorrisos, abusos ….. o desconhecido. Dar nome à dor é se furtar ao abismo da existência. Dar forma ao monstro é apaziguá-lo, é negociar com ele um topos, uma classificação, uma domesticação. Por isso o Surrealismo é uma via certa de circular do pânico ao sonho, e do e do horror ao combate. E que não se confunda o não-compreendido com o não-existente, ou não saberíamos dos belos e loucos fractais. No desconhecido, como na dor ou no medo, encarar a paisagem de sua subjetividade propõe um deslocamento para um vácuo onde as palavras-de-ordem da utilidade estão mudas. Daí o Surrealismo ser um jogo de abismos como a vida em sua crueza. Para Artaud só nos livramos dos controles civilizatórios pela profundidade desconhecida. Ele brada:

“Toda a escritura é uma porcaria. As pessoas que saem do vago para tentar precisar seja o que for do que se passa em seu pensamento são porcos. Todo o mundo literário é porco, e especialmente o deste tempo… Todos aqueles para quem as palavras têm um sentido, todos aqueles para quem existem altitudes na alma, e correntes no pensamento, aqueles que são espírito da época, e que nomearam essas correntes de pensamento… são porcos” [1].

Surrealismo guarda forte identificação com ideias libertárias, abraçado a infinitas contradições. Viver sem a calma da explicação é aceitar viver em suspenso. Sem certezas que não passam de hipóteses teóricas agarradas por cansaço ou covardia.

Outono

1 –  Autumn   de  Gediminas Pranckevicius / 2014

Viver em suspenso, entre as certezas científicas e religiosas de um lado, e a dúvida porosa e aventureira, Antonin Artaud propôs viver na suspensão poética. Mergulhado na Poesia, o indivíduo se separa da mediocridade cotidiana, das certezas rasas e tolas, mas em compensação, abandona o sereno travesseiro. Viver em Poesia é atravessar um cotidiano-equilibrista, arriscado e louco, visceral, mas fatal. Antonin Artaud pagou alto preço por nunca descansar sobre ‘a verdade’, mergulhando nos sonhos como na vida.

Juan Miró

          2 – Carnaval do Arlequim –  Jean Miró/1925

O tempestivo movimento SURREALISTA foi marcante por suas obras e atores, mas também pela ousadia de suas ideias. Como disse Otavio Paz, no caso da poesia, esta não salva o Eu do poeta, mas “dissolve-o na realidade mais vasta e poderosa da palavra”[2]. E sua radicalidade e grandeza repousam na aceitação do OUTRO, por mais estranho que seja, já que tudo cabe no sonho, já que “nega a ilusória coerência e segurança da consciência – esse pilar de nuvem que sustenta nossas arrogantes construções filosóficas e religiosas”[3]. Como Artaud, Paz acusa a organização racional de escamotear o a riqueza e o risco do enfrentamento da vida numa caixa de serenidade que só empobrece a vida e não a salva nem protege.

Surrealistas julgaram ser tão libertários, que tentaram unir seus “mergulhos” ao movimento Anarquista nos anos de 1950, esquecendo que o Anarquismo, construiu-se em rígida moralidade, para dar lugar a todos os dons possíveis, num comprometimento com a permeabilidade dos anseios do Outro. Para isso, propuseram um caminho frugal, estóico, quase ascético, onde as arestas da vaidade humana não voltasse a promover hierarquias doentias, fonte dos sofrimentos sociais. Mas sem os delírios dos sonhos os Surrealistas não poderiam existir, enquanto os Anarquistas tentavam pisar em realidade concreta e comezinha para dar espaço a todas as necessidades, enquanto Surrealistas buscavam o direito ao inútil. Libertários ambos descobriram-se antagonistas irreconciliáveis[4].

Anarquismo e Surrealismo têm de fato pontos comuns, já que ambos atacam o uso político que a razão cientificista faz das coletividades, mantidas sempre à distância segura dos projetos de usurpação do poder. E sabemos que esse é um ponto nevrálgico a todos que visam o poder. Desautorizar quem os desmascara é urgente, e depois, postos no isolamento até o ostracismo exótico das ideias risíveis. Assim é que, apesar das denúncias de Foucault e de Stuart Hall, entre tantos outros pensadores, os ataques de ambos movimentos, foram sendo neutralizados até tornarem-se ‘nichos de mercado’. Para tal, poderosos de plantão, arraigados às suas viscerais ambições, apóiam-se em suas ideologias matematicamente construídas, e usando todas as mídias e instituições, contra-atacam, sistematicamente: Escolas, Ciência, Religiões, Indústria de Entretenimento e claro, a Publicidade. Todos contra a Liberdade de se auto-governar ou se auto-perder.

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3 – René  Magritte – Les amants /1929

Aos surrealistas, deu-se a pecha de sonhadores drogados, irresponsáveis e inconsequentes, enquanto os anarquistas foram tidos por sórdidos veiculadores do caos, pois, distorcendo, propositadamente suas críticas às hierarquias, os acusam de defensores de um viver sem regras, associando-os ao perigo da selvageria desenfreada. Assim, o surrealista passou a ser tido por um “porra-louca” e todo anarquista tido por vândalo selvagem. Essas simplificações grosseiras têm-se demonstrado muito eficazes no combate aos movimentos opositores ao sistema vigente, pois possuem um apelo bastante imagético, de fácil circulação publicitária. O cientificismo e a religiosidade fizeram morada em mentes assustadiças e humilhadas, levadas a reverenciar, acriticamente, todas as doutrinas levadas pela idolatria dos incautos.

Podemos concordar que o cientificismo do século XIX tenha sido um aperfeiçoamento do racionalismo aristotélico que, na tentativa de controlar explosões mágicas e místicas da antiguidade, por uma ordem mais apolínea, previsível e confiável, extrapolou para outras, de preferência todas as áreas de manifestação humana. Mas a razão acabou sendo totalitária “em sua necessidade ávida de universalidade (…) levando à destruição todas as singularidades”[5]. O mundo afunila-se para um único padrão, tendendo à tirania do imbecil.

Na Arte, e na poderosa Poesia, no entanto, a largueza da vida encontra advogados, como na obra de Roberto Piva que lutou por essa subjetividade espraiada. Corajosamente, fez circular a ideia abissal de confrontar o racionalismo em uma tônica que beira a insanidade do prazer e do descontrole, numa chave mais monstruosa do desejo. Revisitando sonhos, pesadelos, carcaças de preconceitos, entulhos de pobres angústias, misturou e confundiu controles mentais, tornando ridículas lições de asseio, saúde corporais, beleza apolínea, comedimento, etiqueta, e todo o arcabouço que controlou corpos cristãos com mãos de ferro, desde o século XVII quando, finalmente, a ciência pôde justificar pela lógica, seu grande aparato disciplinador para o controle. Roberto Piva, confrontando o destino tirânico da razão e dos controles sobre o corpo, escreveu em Homenagem ao Marquês de Sade[6]: “falta ao mundo uma partitura ardente como o hímen (…) onde edifícios crescem para que eu possa praticar amor nos pavimentos / contanto com Marquês de Sade (…) que me dilacera & me protege contra o surdo século de / quedas abstratas”.

A diversidade é anárquica e, quase sempre incompreensível, mas é sobre elas que reside a riqueza humana. O resto é apenas  medo, cobiça e indiferença ao outro.

 

[1] ARTAUD, Antonin. Linguagem e vida. São Paulo: Perspectiva, 1995. p. 209.

[2]PAZ, Octavio. Signos em Rotação. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006. (série Crítica).  (Coleção Debates, n. 48). p. 222.

[3] PAZ. Idem, p. 225.

[4] COELHO, Plínio A. (seleção). Surrealismo e Anarquismo. São Paulo: Ed. Imaginário / Tesão – A Casa do Soma / Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, 2001. (Coleção Escritos Anarquistas, n. 15).

[5] MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior – ensaio sobre o i-mundo moderno. São Paulo: UNESP, 2002. p. 11.

[6] PIVA, Roberto. do livro original Piazzas,  reeditado em Um estrangeiro na legião. Obra Reunida, Vol. I. São Paulo: Globo, 2005, p. 80-1.

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