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VANGUARDA E TIRANIAS

Gustave Courbet - Homem desesperado - 1843

Gustave Courbet – Homem desesperado – 1843

No advento das vanguardas, solavancos propunham quebras de paradigmas muito além dos gostos associados ao refinamento e bel-letrismo. A cada nova transformação visual, testamentos e manifestos propunham o rompimento com o passado. Mas à cada nova ideia estética correspondia uma ética político-social. E os adeptos se arriscavam em searas, de fato, desconhecidas, ousadas, temerária, como os mergulhos nos porões do inconsciente proposto pelos surrealistas. No entanto, passada a febre ‘revolucionária’ muitas contradições foram sendo apontadas, como a tendência à arregimentação e condenação dos não-alinhados. 

Cubismo – Garrafas e peixes – Georges Braque – 1910

A questão da visão contemporânea na arte e na ética, é um magma disforme que queima tudo ao redor sem ousar propor uma escolha, pó receio de se ver associada às contradições vanguardistas, mas o momento está menos para uma postura democrática do que para um paradoxo ético paralisante.

As teorias e experiências vanguardistas de fusão da arte com a vida nessa era pós-qualquer-lei, já condena a pretensão vanguardista ao altar da auto-imolação devido à contaminação da disciplina, ou à suprema predisposição à leniência, confundida com democracia. De qualquer modo, várias formas de libertação foram tentadas desde o final do século XIX até os anos 30 do século XX, período em que as vanguardas propunham utopias estéticas e éticas.

Formas ousadas de criar, de se vestir, dançar, seduzir, amar e se expor publicamente, mas que, a despeito de toda ousadia, se deixavam capturar pela tão confiável, íntima e basilar disciplina. É fácil reconhecer a contradição do ser-agir dos vanguardistas, quando estão tão próximos do século XIX, o século da disciplina, como o batizou Foucault.

E esse processo é iniciado com a implantação do cristianismo nos séculos III ao VIII com o triunfo de Carlos Magno. Longos e duros séculos de imposição da disciplina como salvadora da humanidade se seguiram. Perseguições às deusas da fertilidade, orgias propiciatórias, colheitas sob ameaças, crenças sob ameaças, corpos sob ameaças. Terror, punição, penúria, fome e castigos disciplinares, já que a barbárie pagã precisava ser vencida. Além do mais, desde o início do período cristão, a disciplina deveria sobrepor-se à aparente dissolução social do Império Romano em decadência política, em que o vigor e a austeridade já não eram mais valorizados como nos tempos da República, amolecendo seus exércitos, crentes religiosos, às fronteiras do império.

Por outro lado, no resto do território europeu, o paganismo com seus rituais liberadores de forças anímicas, obscuras poções e danças orgiásticas, expandiam poderes da natureza selvagem em nome do bem fluir das colheitas e outras tantas interpenetrações telúricas e cósmicas, que deveria aparentar total caos – descontrolado e assustador. Frente aos rituais ‘bárbaros’, a supremacia do logos grego encravado na Cultura Ocidental, conduziria a um inevitável confronto.

Fauvista – Henri Matisse – Dance II – 1910

Com a sujeição dos povos europeus, a imposição da lógica grega, tomou muitos séculos de disciplinarização, de tal sorte que, lentamente, nova mentalidade se constrói, e, não haveria de ser com algumas ousadias estéticas, com alguns gritos vanguardistas, que o grande arcabouço delimitador ruiria! Foi preciso mais algumas décadas de esforços, além dos poderosos reforços desregradores advindos de pensadores audazes, que ajudaram a minar resistências, com suas pérolas heréticas, fortalecendo os grupos que se rebelavam. Como diria Stuart Hall[1], pensamentos insidiosos iam amolecendo as fortalezas da autorepressão e também do arrogante autocentralismo, num movimento a que chamou “descentramento”. Esse movimento se inicia em meados do século XIX e segue buscando o fora e o dentro, o moderno e o pós-moderno, o Eu e o Outro, desde então. Mas antes que a busca clara e explícita pelo rompimento se manifestasse, foi preciso que fôssemos humilhados em nossa condição de “filhos de Deus”, herdeiros de todo o resto da criação planetária. Darwin comprovará cientificamente nossa “miquice”, isto é, nossa condição de primata, parente direto de um mundo muito mais simiesco do que sonhava nosso edulcorado e sacrossanto criacionismo.

Também Freud nos causou uma pedagógica humilhação, quando confirmou que, a despeito de nossos esforços para nos assenhorearmos de nossas vontades e convicções, como nos ensinaram Descartes e Kant com tanto zelo e riqueza de detalhes, jamais teríamos poder sobre todos os nossos pensamentos e desejos. Seríamos eternamente, reféns de (quase) inexpugnáveis porões do indomável inconsciente.

Ainda vale lembrar outra fragilidade do arcabouço moderno, pela evidência demonstrada por Marx, lembrando-nos que somos delimitados pelo mundo a nossa volta, tanto em termos de período histórico, quanto de condições de vivência, ou sobrevivência, isto é, ambiência física, com seu equilíbrio ou não, das condições ecológicas. E claro por fim, das vantagens e desvantagens da classe social, desmontando o castelo de cartas do mérito, invadindo e desautorizando a seara exótica ao cientificismo do século XIX, da sorte, isto é, o privilégio.

Seguindo ainda Stuart Hall, poderíamos somar a questão da linguagem, referindo-se ao estudo de Saussure, mas na verdade, é mais um desdobramento da colocação marxiana, uma vez que linguagem está embutida no período histórico e nas condições sociais do indivíduo, ainda que seja permeável, evidentemente, como viria esclarecer Bakhtin.

Assim, as vanguardas, filhas ingratas do Iluminismo, a despeito de toda sua crítica e espírito cruzado, dobraram-se à disciplina, íntima e familiar. Poderia ser outra disciplina, mas acabava se dobrando a uma regra soberana, altaneira, arrogante como um general fugido da caserna, que não consegue, apesar da dissidência, jogar fora suas medalhas de bravura, lealdade e disciplina.

Rei do mau gosto - Rubens Gerchman - 1966

Rei do mau gosto – Rubens Gerchman – 1966

Rancière também se dá conta que, após as vanguardas “paramilitares” e o esteticismo situacionista[2], onde o verdadeiro terreno, decepcionado, dos confrontos da história, deveria focar no terreno estético, caiu em languidez nostálgica. Jean-François Lyotard demonstrou esse luto político pela via da estética crítica. Mas não se trata de resgatar a ação estética como outro trajeto utópico-político, e sim como efetividade do pensamento, como pensabilidade das relações e fazeres, mas acima de tudo, suas possibilidades reais de transformação. Produto do conceito-balaio de Modernidade em que se amontoou de Cézanne a Duchamp, passando por Descartes, Freud, arrastando até o holocausto na Europa, a arte segue propugnando ações políticas, ainda quando vista como democrática, isto é, quando não propõe explicitamente, quando não induz, apenas soma. Com Rancière acertamos a ideia de que, sendo a arte (e seu fazer) restrita a ela mesma, sua intervenção e interferência também, possui essa mesma extensão, ou seja – curta e pontual. Ainda que pleiteando verdades em seus atos de arte-coragem, muitas “invasões” roubaram sua “alma pura”. Não há mais pureza nela, já que virou mercadoria e possibilidade de novas sobredeterminações disciplinares.

Arte e política sempre trouxeram conflitos de compreensão. Há os que supõem politizar a arte para trabalhá-la panfletariamente, como os socialistas e comunistas, com o realismo socialista, mas há os que procuram estetizar a política, como fizeram os fascistas. Na politização da arte, ela deve ocupar o lugar da religião, tornando-se a-histórica, como uma verdade transcendente. Quanto à estetização da política, Luiz Costa Lima comenta: “A violentação das massas forçadas ao culto de um ditador corresponde à violentação que sofre a arte forçada à produção de valores culturais”[3]. Estetiza-se a política quando se pretende conceder às massas sua expressão, mas não seus direitos. Assim, o projeto burguês de se afastar do cotidiano na busca da perfeição da arte (arte pela arte), ou o projeto comunista de enlevar as massas, ou o projeto fascista de enlevar a polis, são formas diversas de propor leituras políticas sobre a arte e a sociedade, mesmo quando negam haver eleições políticas na produção da obra.

Estando inseridos em um projeto coletivo e comunitário, sempre haverá a exposição de sua experiência pessoal, consciente ou não, e advogar pela ‘neutralidade’ da arte, só denunciará seu desejo por escamotear orientações políticas, já que, como diz Costa, “a oposição não é entre politização ou não-politização, mas entre modalidades de politização”[4]. A neutralidade não significa ausência de politização da obra de arte, apenas conivência, indiferença ou manipulação. O risco não está em produzir arte politicamente, uma vez que isto ocorrerá fatalmente, mas sim, ter a intenção de construir produtos políticos. Nietzsche afirmou que quanto mais inconsciente, melhor: “Para que haja a arte, para que haja uma ação estética é incontornável uma precondição fisiológica: a embriaguez”[5].

NOTAS:

[1]   HALL, Stuart. Des-centrando o sujeito. In: A questão da Identidade Cultural. Campinas: Unicamp, 1995. p. 27- 36.

[2]   Movimento liderado por Guy Debord tornou-se conhecido quando eclode a chamada “revolução de 68”, propondo intervenções pontuais nas cidades contra as formas de controle e disciplina, tanto sociais, quanto contra os lemas e regras do consumo capitalista. O situacionismo envolveu desde artistas plásticos, urbanistas, às mais variadas áreas do pensamento e ação políticos. Suas intervenções estético-anarquistas acabaram produzindo “invasões” culturais como os happenings do qual foram uma das influências mais evidentes, dando novo sentido à antiga “Ação Direta” do anarquismo italiano de Mallatesta e até do brasileiro José Oiticica, desde o século XIX ao início do XX.

[3]  LIMA, Luiz Costa. Benjamin: Politização ou Estetização. In Revista de teatro, crítica e estética O Percevejo,  n.6, ano 6, Rio de Janeiro: Uni-Rio, 1998. p. 33.

[4]  Idem, p.34. Grifo nosso.

[5] NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos: ou como filosofar com o martelo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000. p. 70.

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