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ARTE DE RUA: MITOS E CONFLITOS

Há muitos anos que convivemos com escrituras pelas cidades. São Paulo é uma dessas cidades que, a cada dia, fornece mais e novas imagens, cores, escrituras ilegíveis e grande diversidade de grafismos que causam surpresa todos os dias. Estas manifestações, no entanto, não apareceram no mundo com o Movimento Hip Hop, mas estão presentes desde as origens das formações sociais, como confirmam as inscrições rupestres na França (Lascaux), na Espanha (Altamira), e no magnífico sítio da Serra da Capivara no Piauí, descoberto recentemente. Muitos outros sítios arqueológicos provam essa vocação humana.

2. Arte rupestre na Chapada Diamantina

2. Arte rupestre na Chapada Diamantina

Das escrituras míticas descobertas nas cavernas, seguiram-se lápides, testamentos em pedras e tijolos, estelas solenes em monólitos, até os xingamentos encontrados na cidade de Pompeia, observamos a irresistível necessidade de diálogo com seu grupo, independentemente do tempo histórico, num persistente desejo de dar testemunho ao futuro.

3. Pichações ofensivas de Pompeia - Séc. I d.C.

3. Pichações ofensivas de Pompeia – Séc. I d.C.

Com a onipresença do Capital como forma de Produção Social, os laços comunitários são rompidos dando lugar à competitividade que acelera a circulação de mercadorias, a nova deidade mundial (BENJAMIN, 1987). O mundo se desdobra entre “europeus civilizados e industrializados” e os “Outros” – o Oriente, a África e povos latinos, que formam o “exército de reserva” de uma mão de obra mantida abaixo da linha de pobreza, e que lutam por justiças. Do México seus muros exportam muralistas que apoiaram a Revolução de 1930. Os muros sempre foram políticos, mas com os mexicanos, ganharam o impacto da arte sobre os espíritos sonolentos.

4. Siqueiros - Libertação - 1944

4. Siqueiros – Libertação – 1944

Mas as cidades são nossos caminhos, nossas margens, nossas fronteiras, nossos espelhos. Tomá-las como cadernos, como bandeiras, como megafones, é questão de sobrevivência. No Brasil, durante a Ditadura Militar, cidadãos corriam riscos de vida pela expressão de suas angústias e denúncias. Da década de 1960 à 1970, o horror brotava de paredes sujas como cogumelos de sangue.

5. Pichações contra o Terrorismo de Estado

5. Pichações contra o Terrorismo de Estado

Enquanto os tiranos de fardas exigiam a seriedade dos humilhados, o deboche e o humor foi a arma de resistência mais consequente contra a ditadura da direita e os guerrilheiros da esquerda armada, que se confrontavam aumentando a paranoia e o aparato de repressão sobre a população. Mesmo com o controle violento, além das ‘palavras de ordem’ começaram a surgir pelas ruas, imagens irreverentes de Matuck e Vallauri no final dos anos 1970, e as marcas sobre a cidade assumem também a palavra poética, a provocação e o humor. A Contracultura se vestia de Tropicalismo e deixava marcas tupiniquins em muros acéticos e caretas.

6. Rainha do frango assado Alex Vallauri

6. Rainha do frango assado Alex Vallauri

Enquanto amargava-se uma ditadura militar moralista e violenta, a Contracultura enlouquecia as classes-médias dos EUA e da Europa nos anos 1970 pela liberdade de se dar e sentir prazer, ao invés da obrigação da disciplina e a moral para o trabalho. Mas no coração do “American Way of Life”, em Nova York, os bairros ocupados por imigrantes latinos e outros ‘não brancos’ de muitas etnias, foram abandonados na sujeira e isolamento. Meninos com baixa escolaridade e tédio por não terem o que fazer, começaram a rabiscar muros, paredes e, finalmente, vagões de metrôs que percorriam o resto da cidade. Ficaram famosos com a ideia de fazerem seus nomes passearem: “Just to see my name goes by!” (MAILER; NAAR, 2009, p.6). Surgia no Brooklin o Movimento Hip Hop que iria se espalhar pelo planeta, uma vez que o que não falta neste mundo é pobreza, abandono, tédio e garotada inquieta.

 

7. Vagões de metrôs de NY - 1973

7. Vagões de metrôs de NY – 1973

Quando o Hip Hop chegou ao Brasil na década de 1980, o país já tinha um percurso de transgressão sobre os muros contra a opressão aliada ao humor, traço marcante da cultura local. Sem dinheiro para usar latinhas de spray, a técnica original dos grafiteiros, o início da chegada em terras brasilis, vai se misturando com látex de parede, rolinhos de espuma, índios, palavrões e os Macunaímas que Mário de Andrade tinha predito. Nosso isolamento funcionou como um depurador do movimento, produzindo uma forma tão peculiar e local, que acabou chamando a atenção de grafiteiros do mundo inteiro. Com a inconsciência do Modernismo juntando com histórias recontadas do Tropicalismo, nosso (meio)Hip Hop ganha cores particulares, onde citações culturais vão encantando moradores de uma cidade in-sis-ten-te-men-te cinza, que se quer “Capital da Produção” onde só se via um lugar triste, barulhento, fedido e apressado.

8.Osgemeos – exposição Fermata – 2012

8.Osgemeos – exposição Fermata – 2012

Osgemeos serão os primeiros grafiteiros da geração dos anos oitenta a ficarem famosos com a criação um mundo mítico com fortes referências nordestinas, enquanto Nunca retrabalhou os índios em tabas industrializadas, e  Zezão mergulhando nos esgotos retirou suas belezas art-nouveau e Vitché  se perdeu nos sonhos de lindos Circos. À partir dos anos 1990, muitos outros surgiram como Boleta, Titifreak, Niggaz, Onesto, etc., ganhando espaços, tanto em galerias, como em becos e muros.

9. Vitché e seu Circo Mágico

9. Vitché e seu Circo Mágico

Mas o grafite não se restringe a sonho, humor e poesia. É também grito, gana, desprezo e surge a famigerada pichação, ou pixação, como preferem seus autores. A pichação é gesto heroico, porém inútil, de uma geração destituída de participação efetiva sobre os rumos da cidade, mas que delata em suas andanças e escaladas, o abandono da periferia. Sem lazer, quadras de esportes, bibliotecas ou clubes, garotos ousados simulam outra ‘escola de artes’, outros Ritos de Passagem onde seu valor será testado e dividido com o grupo arriscando suas vidas para sua aceitação (CAMPBELL, 2012, p.135).

10. Pichador em prédio

10. Pichador em prédio

Linguagem admirada por artistas plásticos e sociólogos de todo o mundo, são temidos e execrados no próprio país, onde tentam deixar sua marca de vitalidade nos escombros de uma cidade que os hostiliza. No entanto, são criadores de novas famílias de letras, que propõe em grandes manifestos criptografados. Antagonistas do Grafite, as Pichações ou Pixações, são uma escrita rápida para, ora marcar território, ora se  auto-promover, mas também para acusar ruínas urbanas protegidas pela administração pública para a exploração imobiliária. Pichadores delatam a segregação social que outras expressões urbanas não conseguem. E ainda assim, suas pesquisas e treinamentos comprovam o desejo pela Beleza quando expandem suas marcas, ou tags.

11. Variações da letra 'A' na pichação – diversos autores/escritores

11. Variações da letra ‘A’ na pichação – diversos autores/escritores

No Brasil, além das figuras e imagens, a cidade se recobre de letras, tags, bombs, símbolos, nomes, palavrões e até poemas. A linguagem do grafite, reflexo da crise das urbis contemporâneas tem, ao mesmo tempo, uma visão pueril e leve, que inclui toda a cultura pop disponível, dos mangás japoneses a super-heróis, somando humor, tolices inofensivas até às enjoadas bonecas de Nina Pandolfo. Mas a cidade ainda espera a diversão, a diversidade e a surpresa que poucos ousam produzir, pois ela continua inóspita, feia, suja, maltratada e elitista. Por outro lado, grafites vão sendo incorporados às propagandas comerciais em portas de lojas, mas também em galerias e painéis decorativos residenciais.

Para os que se mantém nas ruas, a selvageria da metrópole tenta seguir a fama do ‘decorador da cidade’, que ganha fama ampliando fotos e colorindo-as de modo a ganhar espaços na mídia, e até no discurso dos prefeitos, que vêm nas reproduções de Eduardo Kobra a unanimidade que revoltava o dramaturgo Nelson Rodrigues. O bonitinho não perturba o poder e a cidade se desdobra em cores inofensivas.

12. Eduardo Kobra - Niemeyer na Av. Paulista

12. Eduardo Kobra – Niemeyer na Av. Paulista

GLAUCIA DE CASTRO PIMENTEL

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, W. Experiência e Pobreza. In Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política.

São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 114-119.

________. Sobre alguns temas em Baudelaire. In Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 103-149. (Obras Escolhidas III)

CAMPBELL, J. O Poder do mito. 29 ed. (original de 1988). São Paulo: Palas Athena, 2012.

CANEVACCI, M. A cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. São Paulo: Studio Nobel, 2004.

COULANGES, F. A cidade antiga. São Paulo: Martin Claret, 2002.

MAILER, N.; NAAR J. The Faith of Graffiti2.ed (primeira edição em 1974). New York: Harper Collins books, 2009.

MANCO, T.; LOST ART; NEELON, C. Graffiti Brasil. London: Thames& Hudson, 2005.

MARIYAMA, V. Estética Marginal: Nova Escola – Vol. 01. São Paulo: Zupi, 2009.

SILVA-e-SILVA, W. da. Graffitis em múltiplas facetas: definições e leituras iconográficas. São Paulo: Annablume, 2011.

– Para mais imagens sobre Artes de Rua – escrituras e linguagens visite os links:

https://br.pinterest.com/glauciapimentel/arte-de-rua-pinheiros-e-vila-madalena/

https://br.pinterest.com/glauciapimentel/dialogos-urbanos/

Texto também publicado pela Revista de Arte e Criatividade ZUPI, acessível pelo endereço: http://www.zupi.com.br/arte-de-rua-mitos-e-conflitos/

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